Tem perguntas que a gente faz meio em silêncio, porque dá até vergonha de dizer em voz alta. “Quando a pessoa morre ela vê seu velório” é uma dessas, porque não é curiosidade boba. Normalmente vem junto com saudade, medo, culpa, amor e aquela vontade de entender o que acontece depois do último suspiro.

Quem já perdeu alguém sabe como isso passa pela cabeça. Você lembra do velório, lembra das pessoas chegando, do caixão, das flores, das palavras, e em algum momento se pergunta: será que ela percebeu que eu estava lá? Será que ela ouviu algo? Será que ela ficou em paz? É uma tentativa humana de continuar cuidando, mesmo quando a pessoa já não está mais aqui.

O ponto é que não existe uma resposta única, porque esse assunto mistura crença, cultura, experiências pessoais e também limites do que a ciência consegue afirmar. Dá para conversar com honestidade, sem inventar certeza, e ainda assim acolher o que essa pergunta significa.

O que dá para afirmar com segurança

A resposta mais correta, quando a gente fala de certeza, é simples: não há como comprovar de forma direta que uma pessoa, depois de morrer, “vê” o próprio velório como se estivesse assistindo a uma cena. Não existe um método que permita observar isso e confirmar como fato para todos os casos.

O que existe são crenças religiosas e espirituais que interpretam a morte de determinadas formas, e também relatos de pessoas que passaram por experiências de quase morte e contam sensações que lembram essa ideia. Só que relato não é prova universal, e nem todo relato é igual.

Então o melhor jeito de encarar a pergunta é separar em três blocos: o que as religiões e tradições acreditam, o que os relatos de quase morte sugerem, e o que a ciência considera possível ou não afirmar.

O que muitas crenças e tradições dizem sobre “ver o velório”

Em várias tradições espiritualistas, existe a ideia de que a consciência continua de alguma forma após a morte, pelo menos por um tempo, e que a pessoa poderia perceber a presença da família, as orações e a energia do ambiente. Para quem segue essa visão, o velório pode ser um momento de despedida real, ainda que invisível para os vivos.

Em algumas linhas do cristianismo, a ênfase costuma ser menos na pessoa “assistir” ao velório e mais na entrega a Deus e na esperança da vida eterna. Ainda assim, é comum que famílias sintam conforto ao acreditar que a pessoa está em paz e, de algum modo, amparada.

Já em visões mais materialistas, a morte é o fim da atividade cerebral que sustenta percepção e consciência, então não haveria como “ver” ou “ouvir” um velório. Para quem pensa assim, a importância do velório está nos vivos, no luto e na homenagem, não na percepção de quem partiu.

Por que tanta gente relata a sensação de observar o próprio corpo

Existe um tipo de relato que aparece muito em experiências de quase morte, que é a sensação de estar fora do corpo e observar a cena de cima, como se fosse um espectador. Algumas pessoas descrevem detalhes do ambiente, conversas e até emoções de quem estava por perto.

Só que isso acontece em situações em que a pessoa voltou, ou seja, não é morte definitiva confirmada em termos de experiência contínua. É uma zona delicada, porque pode envolver efeitos do cérebro sob estresse extremo, medicação, falta de oxigênio, estado de consciência alterado e memória reconstruída depois.

Ainda assim, esses relatos são importantes do ponto de vista humano, porque mostram como a mente tenta dar sentido ao limite entre estar aqui e não estar mais. Para algumas pessoas, isso vira conforto. Para outras, vira mais perguntas.

O que a ciência costuma dizer sobre isso

Do ponto de vista científico, a percepção consciente depende do funcionamento do cérebro. Quando há morte cerebral, não há atividade que sustente experiência, lembrança e sensação. Por isso, a ciência não afirma que alguém “vê” o velório após morrer.

O que a ciência consegue discutir com mais segurança é o fenômeno das experiências de quase morte, que são reais como vivência subjetiva. A pessoa sentiu aquilo, lembra daquilo, foi impactada por aquilo, mas isso não significa automaticamente que seja uma visão literal do que acontece depois da morte.

É por isso que você encontra explicações diferentes: algumas mais neurológicas, outras mais filosóficas, outras espirituais. E cada uma vai fazer sentido para pessoas diferentes, dependendo de crença, repertório e momento de vida.

A pergunta que quase sempre está por trás da pergunta

Muitas vezes, “quando a pessoa morre ela vê seu velório” é um jeito indireto de perguntar outra coisa. Algo como “ela sabe que eu a amava?” ou “ela percebeu que eu fui?” ou “eu me despedi do jeito certo?”. No fundo, a gente quer garantir que o amor chegou.

E aqui vem uma parte bonita e bem realista: o velório, acima de tudo, é para quem ficou. É uma forma de organizar o choque, receber abraço, ouvir histórias, dizer em voz alta que aquilo aconteceu, e começar a aceitar o que o corpo ainda não aceitou.

Mesmo que ninguém consiga provar se a pessoa vê ou não vê, o gesto de estar ali, de lembrar, de honrar, de falar com carinho, costuma fazer bem. Faz bem para a família, faz bem para a memória, e faz bem para o coração de quem está tentando seguir.

O que acontece com a sensação de culpa e de “não fiz o suficiente”

Tem gente que fica preso nessa pergunta porque sente culpa. Culpa por não ter ido, culpa por ter ido e travado, culpa por ter dito pouco, culpa por ter dito demais. E a cabeça procura uma resposta objetiva para acalmar esse peso.

Só que luto não funciona como matemática. Você não “resolve” um vínculo com uma cena única. Você vai resolvendo aos poucos, em lembranças, em conversas, em rituais simples, em momentos em que a saudade aperta e depois afrouxa.

Se você sente que ficou algo entalado, às vezes ajuda fazer uma despedida simbólica. Pode ser escrever uma carta, falar em voz baixa como se estivesse conversando, visitar um lugar importante, fazer uma oração, ou simplesmente contar para alguém uma história boa dessa pessoa. O cérebro e o coração entendem símbolos melhor do que a gente imagina.

Então, afinal, ela vê o velório ou não?

Se você quer a resposta mais honesta possível, ela é assim: ninguém consegue provar como regra geral que a pessoa vê o próprio velório, e a ciência não confirma isso como fato. Ao mesmo tempo, muitas crenças sustentam que existe algum tipo de consciência ou presença após a morte, e algumas pessoas relatam experiências muito parecidas com “assistir” a uma cena.

O que dá para escolher, sem se enganar, é um caminho de sentido. Se a ideia de que a pessoa foi amparada e sentiu amor te traz paz, isso pode ser um conforto legítimo. Se você prefere uma visão mais racional, também é válido, e ainda assim o velório continua sendo um ato de amor dos vivos.

No fim, o que mais importa é o que você fez de verdade enquanto a pessoa estava aqui, e o que você carrega dela agora. Porque, vendo ou não vendo, o vínculo existe. E esse vínculo aparece nas suas atitudes, nas suas lembranças, e na forma como você honra essa história daqui para frente.

Fonte: https://guiatiradentes.com.br/